Sunday, October 03, 2010

Autumn Day

Lord: it is time. The summer was immense,
Lay your shadow on the sundials
And let loose the wind in the fields.

Bid the last fruits to be full;
Give them another two more southerly days,
Press them to ripeness, and chase
The last sweetness into the heavy wine.

Whoever has no house now will not build one anymore.
Whoever is alone now will remain so for a long time,
Will stay up, read, write long letters,
And wander the avenues, up and down,
Restlessly, while the leaves are blowing.

Rilke, Paris, September 21, 1902

Monday, August 23, 2010

«... (une théorie) intéresse comme objet de nouveaux tests, autrement dit, de nouvelles tentatives de réfutations qui, si elles réussissent, n'établiront pas seulement une nouvelle négation d'une théorie, mais soulèveront en même temps un problème théorique nouveau pour la prochaine théorie à venir.»

K. POPPER, La connaisance objective, Paris, Flammarion, 1998, p. 57

Thursday, January 14, 2010

Memory of Marie A.

One day in blue-moon September,
Silent under a plum tree,
I held her, my silent pale love
in my arms like a fair and lovely dream.
Above us in the summer skies,
Was a cloud that caught my eye.
It was so white and high up,
and when I looked up, it was no longer there.

And since that moment, many a September
Came sailing in, then floated down the stream.
No doubt the plum trees were cut down for timber
And if you ask what happened to my dream
I shall reply: I cannot now remember
Though what you have in mind I surely know.
And yet her face: I really don't recall it.
I just recall I kissed long ago

Even the kiss would have been long forgotten
If that white cloud had not been in the sky.
I know the cloud, and shall know it forever,
It was pure white and, oh, so very high.
Perhaps the plum trees still are there and blooming.
Perhaps that woman has six children too.
But that white cloud bloomed only for a moment:
When I looked up, it vanished in the blue.

Bertold Brecht

Monday, December 14, 2009

Diagram of B.'s eyes

O Lord, how vain are all our frail delights;
how mix'd with sour the sweet of our desire;
how subject oft to Fortune's subtle slights;
how soon consum'd like snow against the fire.
Sith in this life our pleasures all be vain,
o Lord, grant me that I may them disdain.

How fair in show where need doth force to wish;
how much they loathe when heart hath them at will;
how things possess'd do seem not worth a rish (rush),
where greedy minds for more do covet still.
Sith in this life our pleasures all be vain,
O Lord, grant me that I may them disdain.

What prince so great as doth not seem to want;
what man so rich but still doth covet more;
to whom so large was ever Fortune's grant
as for to have a quiet mind in store.
Sith in this life our pleasures all be vain
o Lord, grant me that I may them disdain.


Sir Philip Sidney

Sunday, December 06, 2009

O mundo é um lugar estranho.

Depois de escrever o texto anterior, acabei por pesquisar no Google parallax+love e vim a saber que sou a reencarnação da Sylvia Plath. E este é dos melhores poemas que já li em toda a minha vida.

«LOVE IS A PARALLAX»
'Perspective betrays with its dichotomy:
train tracks always meet, not here, but only
in the impossible mind's eye;
horizons beat a retreat as we embark
on sophist seas to overtake that mark
where wave pretends to drench real sky.'

'Well then, if we agree, it is not odd
that one man's devil is another's god
or that the solar spectrum is
a multitude of shaded grays; suspense
on the quicksands of ambivalence
is our life's whole nemesis.

So we could rave on, darling, you and I,
until the stars tick out a lullaby
about each cosmic pro and con;
nothing changes, for all the blazing of
our drastic jargon, but clock hands that move
implacably from twelve to one.

We raise our arguments like sitting ducks
to knock them down with logic or with luck
and contradict ourselves for fun;
the waitress holds our coats and we put on
the raw wind like a scarf; love is a faun
who insists his playmates run.

Now you, my intellectual leprechaun,
would have me swallow the entire sun
like an enormous oyster, down
the ocean in one gulp: you say a mark
of comet hara-kiri through the dark
should inflame the sleeping town.

So kiss: the drunks upon the curb and dames
in dubious doorways forget their monday names,
caper with candles in their heads;
the leaves applaud, and santa claus flies in
scattering candy from a zeppelin,
playing his prodigal charades.

The moon leans down to took; the tilting fish
in the rare river wink and laugh; we lavish
blessings right and left and cry
hello, and then hello again in deaf
churchyard ears until the starlit stiff
graves all carol in reply.

Now kiss again: till our strict father leans
to call for curtain on our thousand scenes;
brazen actors mock at him,
multiply pink harlequins and sing
in gay ventriloquy from wing to wing
while footlights flare and houselights dim.

Tell now, we taunq where black or white begins
and separate the flutes from violins:
the algebra of absolutes
explodes in a kaleidoscope of shapes
that jar, while each polemic jackanapes
joins his enemies' recruits.

The paradox is that 'the play's the thing':
though prima donna pouts and critic stings,
there burns throughout the line of words,
the cultivated act, a fierce brief fusion
which dreamers call real, and realists, illusion:
an insight like the flight of birds:

Arrows that lacerate the sky, while knowing
the secret of their ecstasy's in going;
some day, moving, one will drop,
and, dropping, die, to trace a wound that heals
only to reopen as flesh congeals:
cycling phoenix never stops.

So we shall walk barefoot on walnut shells
of withered worlds, and stamp out puny hells
and heavens till the spirits squeak
surrender: to build our bed as high as jack's
bold beanstalk; lie and love till sharp scythe hacks
away our rationed days and weeks.

Then jet the blue tent topple, stars rain down,
and god or void appall us till we drown
in our own tears: today we start
to pay the piper with each breath, yet love
knows not of death nor calculus above
the simple sum of heart plus heart.

Sylvia Plath

Saturday, December 05, 2009

Parallax Love

Parallax Love é uma peça dramática sobre um amor atribulado em torno do qual o Autor explora a dolorosa colisão entre a extroversão e a introspecção. As personagens percorrem uma cansativa viagem mental, revisitando ideias supremas como o amor, a razão e o belo, tentando necessariamente atingir um consenso, consolidando assim a sua relação. Todavia, esse consenso jamais é atingido, pois as suas visões são sempre diametralmente opostas, dando azo a uma luta intelectualmente estimulante, apesar de espiritualmente entediante.
Inicialmente, o drama de um jeito fechado sobre si próprio, grave e sisudo, que constrói teimosamente um micro-cosmos de dúvida e de exaltações líricas a um amor que ele considera jamais poder perder, contraposto a uma mente feminina, hábil, egotisticamente centrada sobre o mundo concreto, armada com um sentimentalismo empírico. Até à posterior re-relativização do relativo, em que ela passa a afirmar a absolutidade de um amor-perfeito que há-de vir, mantendo o estoicismo para com o momento presente, em detrimento da experiência passada, da aversão ao sentimento desmesurado - que para ela não passaria de ilusão: o medo da dor, da tristeza e da solidão; a preferência de uma exaltação frenética da realidade.
Perante a franqueza bem argumentada de uma dosagem sentimental amórfica, ele contenta-se com aquilo que tem, numa apologia à simplicidade e à importância vital da mulher. O drama da conformação perante o prosaico. Tentando eliminar a estereoscopia com que via complexidade em tudo, deixou de combater moinhos de vento, mergulhado no seu próprio vexame. Não havia já nada que o fizesse sentir sentido nas coisas. Porquê tantos excessos, tanta irracionalidade? De magia já nada restava a não ser o dia-a-dia, mar de inutilidade e decadente solidão. Sim, vítima. Pois, mesmo assim, para continuar nesse dia-a-dia inútil teria de se curvar novamente e, ao erguer-se da vénia, fingir que ainda é rei. Tinha finalmente compreendido o porquê de a leveza do ser ser verdadeiramente insustentável.
Àqueles que de seguida tentarão pesquisar no Google, lamento informar que esta peça não existe. E agora inclusivamente tenho fome.

Friday, October 16, 2009

Calibidografia

Quando o lençol branco e fresco
Te atravessa as pernas no Verão
Envolves-te num arabesco
Estado de persuasiva meditação

Dispões-te a amar intensamente
Memórias, livros e amigos
E desconstróis abrasivamente
Pensamentos que antes davas por perdidos

Entoas um vazio épico
Enchendo o busto de glória e orgulho
Espreguiças-te em modo estético
Nos exotismos de um mês de Julho

Convalesces
Porque as raízes te deixaram
E agora cresces
Porque as certezas te mudaram

Deixando marcas de batom
Em todos os homens que celebras
Descendo um semitom
Em cada canção de que te lembras

Os tempos agora já são outros
Não reconheces as correntes desta praia
Os filósofos deixaram de ser loucos
E de uma ideia te tornaste cobaia

Quando te olhaste ao espelho
Nos teus olhos amendoados
E recebeste em choro um conselho
Do teu coração despovoado.

Friday, October 09, 2009

Na minha terra as ameixas (isto é o meu texto sobre Herta Müller)

Na minha terra as ameixas no Outono
Desprendem-se das árvores e caem ao chão
Apodrecem e fermentam lentamente
Convidando a um épico sono acidental.
A magia é evidente.

As ameixas, impúdicas, despem as suas camisas
E humedecem o asfalto
Evaporando aromas suculentos:
Inspiram célebres poetisas
E enlouquecem homens ciumentos.

De volta a casa do trabalho
As mães sustêm a respiração de vergonha
Constrangidas, olham em frente
Pisando as ameixas sobre folhas de carvalho,
Pouco-a-pouco esboçando um pensamento indecente.

As raparigas trocam em pequenos grupos
Incompreensíveis leviandades banais
Que pairam em círculos de espesso fumo
Nos quais baloiço sem parar.
Nasci para me apaixonar, presumo

Porque na minha terra as ameixas no Outono
Desprendem-se das árvores e caem ao chão
Apodrecem e fermentam lentamente
Convidando a um épico sono acidental.
O sentido é sempre reticente;
A magia, incorporal.

Nobel da Literatura

Não podia estar mais contente pela Herta Müller, minha conterrânea e amiga da minha avó.

Monday, July 06, 2009

Hesitação

Desde sempre procurei a linha
Que separa a chuva da não-chuva,
O mar frio do mar quente,
O que se sabe do que se adivinha
E o que se adivinha do que se sente.

Mas sempre que encontrava a chuva
A não-chuva intimidava-me,
Aparecendo-me nas costas, silenciosa:
Comecei, pois, a fartar-me
Da minha inútil procura teimosa.

Hoje, procuro a oculta fronteira
Que separa o bem do mal,
O ter-sido do jamais-ter-sido.
Questiono um jardim de dormideiras
Se alguma vez ela terá existido.

E sempre que encontro o bem
É o mal que me intimida,
Surgindo-me nas costas, silencioso:
Começo, pois, a fartar-me
Deste passatempo vão e ocioso.

Sunday, May 17, 2009

Edgar Morin vem cá

A propósito dos 30 anos do Instituto Piaget, Edgar Morin participará no colóquio «Complexidade, Valores e Educação do Futuro», a 22 de Maio, em Viseu.

Saturday, April 25, 2009

Dias da Música II

O que vale é que logo a seguir fomos ver o trio do Uri Caine (Variações Goldberg). Portanto, mesmo que Filipe Pinto-Ribeiro não tivesse dado erros, com o Uri Caine que ouvi, a minha crítica permaneceria intacta.

Dias da Música I

Acabo de chegar do CCB e a minha opinião sobre Filipe Pinto-Ribeiro mantém-se: este célebre pianista ainda não tem a maturidade técnica que lhe é exigida. Apesar do seu magnífico fraseado e de uma ou outra curiosidade na interpretação, ele dá erros. Dá erros que não devia dar. Faz lembrar um aluno numa audição no Conservatório. Das duas uma. Ou Filipe Pinto-Ribeiro estuda mais (há dois anos atrás, o concerto de Brahms saiu-lhe caro) ou então devemos todos concluir que já atingiu o seu limite técnico. A concluir-se por esta segunda hipótese, ainda o devemos reconhecer como um grande pianista. E, já agora, como grande orador também.

Thursday, April 23, 2009

Problemas

Todos nós temos problemas. O Honrado Leitor terá concerteza os seus. Tenho esperança que os resolva muito em breve e que torne a navegar em águas calmas.

Wednesday, April 22, 2009

O Sonho

Quando vocifero o sonho em que Deus surge a Castro Mendes, sinto-me mais próximo da Verdade. Sinto que consigo tocar nas nuvens com uma mão e sentir como elas são feitas de algodão em estado gasoso. As pessoas nas quais o Sonho não tem qualquer impacto são de uma sensaboria estrombólica. Não é brilho que vejo nos seus olhos, mas um véu tépido.

διαλεκτική

Uma tese e uma antítese necessariamente originam uma síntese. Mas essa síntese - e ainda ninguém se apercebeu disso - contém no seu núcleo um vírus adormecido: o paradoxo. Toda a síntese é essencialmente paradoxal. E, tal como n'A Peste de A. Camus, o vírus que vive adormecido na síntese, i. e., o paradoxo, pode um dia despertar e vir a assumir dimensões monstruosas.

Thursday, April 16, 2009

Quando eu era adolescente

Quando eu era adolescente, gostava mais de latinas do que gosto hoje. Gostava de surrealismo, mas lia Thomas Mann. As minhas concepções eróticas eram bem diferentes daquilo que hoje o são. Quando era adolescente, via o Acontece. Agora vejo o Câmara Clara. Recordo-me de ter uma precoce propensão para o vício. As minhas opiniões, no liceu, sugeriam um futuro ditador. Mas eu queria ser diplomata. O que eu mais gostava naquela altura eram as aulas de piano, por causa da professora. Neste momento não sei se gostaria de ter uma aula de piano. Era melhor aluno a Francês do que a Ingês. Mas onde eu era mesmo bom era a Latim. Quando eu era adolescente, conseguia apaixonar-me por uma rapariga tendo em conta apenas os seus olhos, o pescoço e as mãos. Hoje em dia isso já não é possível. Cada articulação é importante. Sempre fui o aluno predilecto das minhas professoras de Filosofia. Todavia, só uma delas é que chegou a ser a minha professora de Filosofia predilecta: a dos collants de rede. Tive uma educação europeia multifacetada. Na infância, os meus amigos eram quase todos judeus. Hoje em dia, são quase todos ateus. As pessoas deixam de acreditar em Deus a partir de uma certa idade. É como o Pai Natal. Depois de Deus, vem a descrença no Contrato Social, mas essa chega sempre tarde demais. Sempre fui muito religioso. Era a única maneira de não prescindir dos vícios e de viver num equilíbrio criado por mim, à minha medida. Ao longo da minha adolescência, nunca troquei ideias com rapazes que usassem meias com sandálias. Ainda hoje é assim. Nessa altura, associava a música de Ravel a uma noite de verão no Sul de Espanha num ano bissexto. E a música de Satie a uma praia britânica sudocidental deserta com nevoeiro. Sempre gostei de viajar, mas sei que ainda não fiz a “viagem da minha vida”. Não cresci numa família milionária nem numa família paupérrima. Cedo, porém, me apercebi de que isso não era o mais importante. O mais importante era, sem dúvida, o acesso à cultura e ao chocolate preto. Aprendi a ler e a escrever sozinho, pois não tive paciência para esperar pelo começo da escolaridade. Mas isso não me impediu de tomar parte em violentos confrontos físicos com os meus amigos. Gosto de cerveja desde o primeiro golo. As minhas expectativas para o futuro eram exageradamente utópicas. No entanto, nunca quis ser astronauta. Nem sempre gostei de música. Até ter ouvido Bach não gostava. Ela (a música) é das poucas coisas não palpáveis que satisfazem verdadeiramente o espírito. E não só. Quando faço certos acordes no piano, consigo visualizar pratos de nouvelle cuisine. É a única coisa que eu e Schubert devemos ter em comum, salvo a nouvelle cuisine, que na época devia ser outra coisa. Sempre quis ter uma namorada que tocasse violoncelo. Mas cedo me apercebi de como isso é pouco importante. Mas ainda quero ter uma namorada que toque violoncelo. Quando era adolescente, o que mais gostava era de tocar piano. Não possuia o dom que hoje possuo para a culinária. Não fazia ideia da importância que uma folha de hortelã adquiria num molho de natas, nem sequer compreendia a diferença entre uma caipirinha confeccionada num shaker de aço inoxidável vs. num shaker artesanal, unindo dois copos de diâmetros diferentes, como muitos brasileiros que por aí andam o fazem. Se a minha visão do mundo na adolescência era pessimista, hoje em dia ela é desprovida de qualquer esperança. Isto deve-se ao facto de, certo dia, numa tasca, me ter tornado um idealista neo-hegeliano. Para não falar do momento em que adoptei uma concepção axiológica objectivista neo-kantiana, não muito longe de Algés. Nunca tive inclinações anárquicas. Só fui multado uma única vez e só fui à esquadra também uma única vez. E eu era a vítima. Ao longo da minha adolescência, raramente dava atenção aos idosos. Hoje em dia, os idosos são a pedra angular de toda a minha existência. Porque o futuro é ser-se idoso. Já experimentei vários tipos de barbeado: máquina, Gillette e, ultimamente, a clássica navalha. Já usei after shave Brut, mas cedo o larguei poisque me lembrava o meu avô. Antigamente, esperava conquistar as raparigas com argumentos literários. Mas cedo me apercebi de que isso não dava grandes frutos. Acredito que haja sete pecados mortais. Todos os dias cometo pelo menos um deles. E, sim, um dia vou morrer por não ter tomado cautela.

Wednesday, April 15, 2009

Precaução

Nos dias que correm, é preciso tomar especial precaução com aqueles que falam em nome da Filosofia.

Cautela

Ainda mais cautela é necessária em relação àqueles que falam em nome do Povo.

Cuidado

Nenhum cuidado especial é, porém, exigido para com aqueles que simplesmente não sabem falar.

Tuesday, March 17, 2009

Heresia

As galáxias vazias esbatem-se na escuridão,
O nada sofrendo ferido de vaidade,
Afonias perturbando célebres melodias
Enquanto assisto à clonagem da divindade.

Os toiros apaixonam-se pelos forcados
Enquanto lágrimas de crocodilo inundam o deserto
E as marionetas embaraçam-se nos fios
Que pendem de um céu a descoberto.

Um pobre génio cortou a própria orelha
E o inteiro tornou-se mais pequeno do que o quarto,
Divas esquecidas sorriem em óleos quebrados
E só falta alguém assistir ao próprio parto.

A popa da mentira é empurrada por uma onda enorme
E o sol brilha a dobrar, festejando em ecplise,
Os sonâmbulos adoeceram e agora dormem,
Enquanto um corvo adivinha o apocalipse.

Sunday, March 15, 2009

Trieste

Passei várias tardes naquela esplanada, por onde passavam bicicletas carregadas de flores, algumas sem dono, outras de alguém para não-sei-quem.

Dalmácia

Ao descer a costa do Adriático, comprei uma guitarra numa aldeia perdida e compus uma canção cujo título coincidia com o nome dela.

Split

Naquele fim de verão, a minha única missão era perseguir o seu vestido azul e falar-lhe de amor.

Dubrovnik

E tudo acabou na última esplanada, onde invariavelmente se bebia licor de limão.

Monday, February 23, 2009

Liberdade

Tanto numa ditadura como num cárcere, o homem não é propriamente privado da sua Liberdade. É privado apenas de um conceito ideal de liberdade.

Pensamento abstracto

Classes de pessoas que repudiam o pensamento abstracto: consumistas, tv-dependentes, leitores de revistas, membros do jet-set, os súbditos de qualquer ditador, os que acreditam nas notícias e, em geral, todos aqueles que têm uma noção muito correcta de Justiça. Enfim, todos aqueles que um certo autor um dia lhes chamou o Espírito do Povo.

Plágio

E. M. Cioran supera todos os existencialistas quando afirma, na maior das simplicidades, «A existência não passa de um plágio». O mesmo grande pensador supera Heidegger ao afirmar «O Ser é o ser-se conhecido». Querem mais?

Os meus (últimos) pensamentos acerca da pós-modernidade

Estou certo de que a pós-modernidade é uma concepção que não terá qualquer significado para o futuro. O seu impacto no pensamento contemporâneo é inegável - a palavra pós-moderno, porém, deixará brevemente de ter qualquer correspondência semântica.

A sua teorização permitiu-nos apreender uma imagem autêntica do mundo actual e, por conseguinte, mais próxima da verdade. Mas o que é certo é que as gerações futuras nem sequer incluirão este termo nos seus compêndios de história da Filosofia.

Além disso, quando aludimos à pós-modernidade, estamos certamente a falar de uma transição. Seria tautológico autonomizar uma “era cultural mundial”, baseando tal autonomização em critérios político-económicos (como é o caso da globalização). Se as coisas assim fossem, todos os momentos presentes não seriam mais do que um post-perfectum. O presente seria por definição o pós-passado e assim sucessivamente.

A recorrência à palavra pós-moderno, em última análise, reconduz-se a uma tentativa de assassinar a própria Filosofia, uma vez que esta é dissolvida e transformada em ciência histórica. A Filosofia tranforma-se na pedreira à qual os autores da pós-modernidade vão buscar os seus argumentos de análise, adaptando-os a uma mescla de análise social fundada na incapacidade de estabelecer uma nova ordem ética para a sociedade contemporânea.

Em suma, a pós-modernidade é uma palavra vaga. Do que se trata na verdade é do culminar da decadência do conceptualismo clássico, aliada ao triunfo das correntes pessimistas: de Schopenhauer a Cioran, passando por Freud e Nietzsche.

Sunday, February 08, 2009

Tuesday, February 03, 2009

Frühlingslied

És com quem espero as estações,
Mil rebentos de folhas primaveris
Que explodem e chovem ambivalências
Ocultas em gestos pueris,
Repletas de infindáveis essências...

Minutos persistentes abalam
Escolhas de água sobre vinho
Ou até as trivialidades silvestres
De que os pássaros constantemente falam
Nas suas digressões transalpestres.

Chovem cirros e canções
Em revistas de passos apressados...
Os melros voam lá no alto
E eu, teu, sempre te admirando
As danças que fazes no asfalto.

Os jogos de atrito que danças
Embalando o desespero perplexo
Das primaveras, que nascem em ti,
Em emaranhados de boas lembranças
Dum livro que outrora abri,

No qual já eras com quem esperava as estações,
Mil rebentos de folhas primaveris
Que explodem e chovem ambivalências
Ocultas em gestos pueris,
Dispersas por infindáveis verões.

Saturday, January 31, 2009

Autonomia Privada

A autonomia privada é como uma tela em branco: cada um de nós pode pintar o seu próprio quadro, com as cores e as formas que quiser. Mas sempre dentro dos limites da sua moldura.

Monday, January 19, 2009

Saturday, January 17, 2009

Tractatus

Comprei-o hoje. A introdução é de Bertrand Russel. Esqueci-me do cartão de crédito na máquina self-service da livraria e só dei por isso quando ia a pagar o pão, na Praça das Flores. Portanto voltei a correr para o Chiado e consegui reavê-lo.

Wednesday, January 14, 2009

Occasio legis

Assim como cada lei provinda do Estado tem a sua ocasião, por via da qual nasce (occasio legis), que lhe serve de norma na sua aplicação e sem a qual permaneceria desconhecida, cada regra, teoria, abstracção tem também as suas dores de parto. Não uma única vez, mas em cada indivíduo que lhe é destinatário. Apenas na sequência de um acontecimento doloroso é que o homem se apercebe da verdade contida naquela regra de vida, sendo que, a partir daquele momento, ela se tranfigura a seus olhos não como uma teoria pura, da qual tinha um conhecimento apriorístico, mas sim como um comando concreto. Ela nasce na sua consciência de uma forma dolorosa. No entanto, ela é simultaneamente uma abstracção. Através da sua aprendizagem, ninguém a aceita na sua completude - todos duvidam da sua verdade. É necessário que a abstracção, construída através do recurso a artifícios lógicos e linguísticos, ganhe a sua vida e a sua própria côr através de um facto qualquer. A norma nasce na consciência do indivíduo naquele preciso momento em que a não-coincidência entre a sua expectativa e a verdade efectivamente manifestada o atinge de forma dolorosa.

Digestão

As verdades abstractas são indigestíveis para a inteligência do povo, tal como o carbono, o azoto, o hidrogénio e o oxigénio puro são indigestíveis para o estômago e não produzem o calor suficiente. Igualmente, nem as abstrações produzem o calor espiritual necessário, pelo que o organismo moral é incapaz de as assimilar.

Friday, January 02, 2009

Vals im Bashir

One night at a bar, an old friend tells director Ari about a recurring nightmare in which he is chased by 26 vicious dogs. Every night, the same number of beasts. The two men conclude that there's a connection to their Israeli Army mission in the first Lebanon War of the early eighties. Ari is surprised that he can't remember a thing anymore about that period of his life. Intrigued by this riddle, he decides to meet and interview old friends and comrades around the world. He needs to discover the truth about that time and about himself. As Ari delves deeper and deeper into the mystery, his memory begins to creep up in surreal images.
IMDb

Saturday, December 27, 2008

Fritz Lang (1927)

Pensamento íntimo

Lá fora está frio e chove torrencialmente. Finais de Dezembro. As formigas passaram a Primavera e o Verão a juntar alimentos, para poderem sobreviver às intempéries. Os grilos, por sua vez, passaram o Verão a cantar.
Agora as formigas, a mais de um metro de profundidade, festejam o trabalho árduo que tiveram e descansam. Os grilos, sem-abrigo, vão pedindo de porta em porta. Mas as formigas nada lhes dão, porque sabem que são preguiçosos. Nada lhes dão, mesmo que cantem um fado.

Beethoven

Um engraçado incidente passional lembrou-me a dedicatória que Beethoven escreveu, numa das suas sonatas para piano, ao Príncipe Karl von Lichnovsky:

Meu Príncipe,
Como vós, de certo, terão existido muitos outros Príncipes e não duvido que de muitos mais venhamos a ouvir falar. Mas garanto-lhe que de Beethoven se falará apenas de um só.

Wednesday, December 24, 2008

Quiet Night (Berceuse)

Oh quiet night, will you hear me?
Will you tell her the way I feel?
Wind keeps blowing through my hair...
I've got your picture and I keep staring,
Reading constellations in your eyes,
Observing how the clouds are passing by...
Finding destinations to my way,
Dreaming all those fancy nightmares.
Oh fancy stars, will you see me?
Will you tell me some news
From my sweetheart?
I'll sail again sweet through the air,
Finding a way to be just there,
Reading constellations in your eyes,
Observing how the clouds are passing by...
Finding designations for your hair,
Dreaming all those fancy nightmares...

Thursday, December 18, 2008

Sara

De todos vós, eu sou a pessoa mais feliz por a Sara ter voltado.

Wednesday, December 17, 2008

Fiscalidade

É muito mais complexo justificar um imposto do que uma pena de morte.

Narciso

A preocupação exacerbada com os valores hedónicos leva o indivíduo a guiar-se pelas premissas de bem estar e de felicidade, optando por um estilo de vida líquido e, acima de tudo, híbrido. O hula hoop dos valores pós-moralistas gira em torno do eixo hedonista de Narciso - o conceito de indivíduo hoje em dia operante. O ego modernista nietzsche-freudiano cede o seu lugar ao Narciso pós-moderno, cuja génese encontra a sua raiz analógica no capitalismo de pendor consumista, nos partidos políticos de ideologia difusa e na transformação da Ars Nova do modernismo numa nova arte, designando-a compulsivamente de "arte contemporânea".
O Narciso pós-moderno não tem preocupações revolucionárias, porque ele próprio é um vazio de ideologia. Ele não tolera os vizinhos do prédio e investe os seus ganhos na actualização tecnológica do seu lar e no seu bem estar físico. Ele quer ser socialmente influente, mas não sabe o que isso quer dizer - o que ele quer ser é uma figura pública, quer ver a sua imagem divulgada nos media. Vota na Direita porque tem sangue azul abastardado. E a pedra angular da sua existência é, como disse, a sua própria felicidade.

Tuesday, December 16, 2008

Avaliação contínua

As pessoas preocupam-se neste momento com a especulação de terem ou não avaliação contínua. No entanto, esta preocupação é supérflua. Daqui a um mês preocupar-se-ão com a especulação de dispensar ou não a disciplina, sendo que, passado meio ano, com o problema de finalizar ou não o curso, com ou sem a média esperada, sendo que cedo virá o problema de arranjar ou não um bom emprego, de casar ou não casar, ter ou não ter filhos naquele preciso momento. A localização central ou periférica do lar também é relevante, sendo que o dinheiro e o amor pela família estarão como o emprego para o desemprego. A especulação do mercado e as catástrofes naturais e antrópicas contribuirão, é certo, para o rumo das vidas de cada um. À preocupação tipicamente ocidental dividida entre trabalho e lazer seguir-se-á a especulação metafísica do preciso instante da nossa morte.

O futuro é híbrido

Toda a gente prefere os híbridos. Os meios-termos, as terceiras vias... Estamos a viver a auto-síntese de um mundo antitético. Antitético ou antinómico? Não sei... O verdadeiro sentido das duas palavras não conheço, não sei...

Tuesday, December 09, 2008

Tolerância

A virtude graças à qual somos capazes de conviver com civilizações inferiores não será nem a bondade nem a boa razão. É efectivamente a tolerância.

Imunidade

Reconheço, não estou imune ao que acabo de dizer sobre o intelectual decadente. Não passo de um corpo outorgado pelo Universo, que preenche os corredores da Faculdade de Direito, passeando sempre um livro que ainda ninguém adquiriu - sendo provável que jamais alguém o adquira - e espalhando aromas de intelectual sofisticado.

Saturday, December 06, 2008

O intelectual decadente

O jurista é actualmente o paradigma do intelectual decadente. O facto de o jurista pós-moderno ter abandonado todas as meta-questões da ontologia jurídica, v. g. o que é o Direito?, qual é o seu conteúdo e os seus limites?, faz dele o grande culpado pela afectação dos esforços revolucionários liberais a um individualismo pós-moralista cuja exaltação dos direitos subjectivos eclipsa os deveres, reduzindo-os à lógica do sinalagma.

Thursday, December 04, 2008

Deus

A relação do Homem com Deus é análoga à do bebé que vai descobrindo o mundo. Com a particularidade de que o bebé não chega propriamente a ser bebé. É antes um nado-morto.

Monday, December 01, 2008

Nos entretantos

«E nos entretantos vamos fazendo esta vida de treta, mas que também lava a alma.»

Thursday, November 27, 2008

Semelhança

Qual é a diferença entre o Pai Natal e o Contrato Social?

Wednesday, November 19, 2008

Exigência ontológica

Todo o direito se funda na exigência ontológica de realização do fim último, e assenta portanto na própria razão e vontade de Deus, criador de todo o universo e na ordem por Ele instaurada na criação; e todo o direito se há-de fundar também, por isso mesmo, na lei natural, revelada pela própria natureza e que outra coisa não é que a lei eterna, promulgada por Deus, enquanto aplicada à actuação racional e livre do ser humano.
Gomes da Silva

Monday, November 17, 2008

Coreto (ode à pós-modernidade)

Talvez no meio de tanta gente existas tu,
Que acreditas na terrível Tentação
De desligar o talk-show e pensar aquarelicamente
Em abrires o frigorífico e ouvir a minha exortação;
E é bem possível que a caridade mediática
Angarie toneladas de arroz para asfixiar os papagaios
Que sobrevoam a Organização,
Caótica, mas sem dúvida carismática,
Enigmaticamente estigmática,
Anonimamente praticante ipsis verbis da dominação.
O meu vizinho já mudou de sexo
E, na sua prolixa delicadeza,
Passeia um novo peito convexo
Por infindáveis palácios de avareza.
Mas o mais importante é que sejas light!
Preenche o teu fago-de-mel-funcional;
Ainda assim, delicia-te num fast-food imundo.
No local de trabalho, sorri aos teus colegas:
Um simples sorriso pode acabar num ménage-à-trois
E com isso lá se vão certas calorias.
Entretanto, há um débil moribundo
Ignorando as esperanças medicinais
(Carece de autobiografia).
Pensa que o mundo é todo teu,
É nisso que reside a verdadeira liberdade =)
Não acredites em Deus,
Pois foi o homem que, dotado de tanga,
Se apercebeu da Graça, do Perdão e da Castidade.
Se te matarem, roubarem ou desejarem a tua mulher,
Dirige-te ao tribunal mais próximo da tua residência.
Também te aconselho pouca leitura.
É que agora dizem que não é nos livros
Que se encontra a sapiência.
Fala-se mais na Escola da Vida,
Num dito amor promíscuo que une as pessoas;
E, se apreenderes umas frases-feitas,
Poderás ter a mulher cujo nome constantemente ecoas:
Usa o teu telefone móvel para exprimir sentimentos
E terás uma grande recompensa afectiva
Sem teres de reunir os elementos
Constintuintes de uma dialéctica contemplativa.
E, quanto a ti, se engravidares,
Sempre podes abortar, com direito a celebração própria
Em estabelecimento de restauração
Com interface para casamentos e baptizados.
Ainda no âmbito desta acepção,
Podemos conceber esmolas para os finados,
Podemos dançar todos juntos a roda dos degredados.
Não menosprezes, por favor, a meretriz
Com a qual te cruzas diariamente, quando voltas do trabalho;
Ela poderá mais tarde ser capa de revista,
Mãe de muitos filhos, porn star ou deputada no Parlamento.
Como vês, é tudo uma questão de temperamento.
Não tens de procurar outra verdade:
Já tens uma, empacotada, bem mais aliciante do que qualquer outra.
E, quando a Consciência te sussurrar ao ouvido,
Não te preocupes. Não passa de uma suportável esquizofrenia,
Após a qual serás automaticamente absolvido.
E a tua vida será, é certo, registada.

Tuesday, November 11, 2008

Crepúsculo

Há vários narcisos que nascem nas paredes da minha sala;
Inquietantes, fazem parte dos tumores da minha imaginação
E, cheios de pureza, com sua frescura cortam toda a escuridão,
Jorrando gota a gota os mais límpidos riachos de opala.

Bem cá dentro, sei-me bem - silenciosa e irritante consciência;
Eu, canalizador, instalei mal o chuveiro que te deu um banho amargo...
Mas as nuvens chover-me-ão e embarcaremos de mãos dadas num indefinível largo
Oceano de dias bons: eu sei flutuar-te bem no cimo da abóbada da turbulência.

Mas sem narcisos nem opalas, ainda que nestes versos longos,
Pálidos porque eu os fiz para me redimir - se os achares grosseiros, é porque não são meus -,
Acredita que preciso de me perder, sendo que a única maneira de o fazer é em cabelos teus:
Julgar-me-ás, no entanto, de plagiar o cego do metro que também lhe dá na métrica alexandrina e nos ditongos.
Mas é a ti que eu amo.

Wednesday, October 29, 2008

Intenção Artística

Podia compor um enunciado feito de proposições que apelassem aos sentimentos ou à razão. Podia neste momento provocar um sorriso ou lágrimas no meu querido Leitor. Podia encaminhá-lo em direcção ao que para mim é a Verdade, convidá-lo à reflexão, à contemplação. Também podia simplesmente dar-lhe a oportunidade de me reconhecer como bom ou mau escritor. Ou então, partilhar uma dada questão ou um mero facto. Havendo intenção artística ou filosófica - haja qualquer tipo de Intenção! -, todas as narrativas são possíveis. E, mesmo sem essa Intenção, o texto que (não) estou a escrever neste momento também é (im)possível.
A Intenção Artística surge intimamente ligada à essência de quem a preconiza. É um espaço mental de desenvolvimento da personalidade, uma auto-poiética reflexão projectante de uma humana concretização. Não há Ser para lá da Intenção, assim como esta última inexiste para além do Ser.

Tuesday, October 28, 2008

O momento «trágico» da Cultura

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Dem herrlichsten, was auch der Geist empfagen,
Drängt immer fremd und fremder Stoff sich an.*


Goethe

* «Às coisas mais majestosas que o Espírito pode dar,
Vem sempre juntar-se uma matéria que lhe é cada vez mais estranha.»
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Saturday, October 25, 2008

A Genealogia do Abismo

A tendência abissal da humanidade é duplamente genética e inata. Genética, porque é desde as origens que o homem estabelece uma ligação estreitíssima com a terra. Inata, porque a tendência primária do homem em relação às alturas traduz-se inevitavelmente no desequilíbrio.

Adolescência

A pós-modernidade, a meu ver, acaba por ser o actual estádio de adolescência da humanidade. A ideia pode parecer demasiado cosmológica, mas o certo é que nunca atravessámos um período de tanta incerteza e indecisão. Mesmo na atitude do indagar pelos responsáveis da pós-modernidade, a dúvida fragmenta-se entre os da Suspeita. Será Nietzsche o grande culpado? Ou terá sido Hiroshima?

Thursday, October 23, 2008

Martha


Dicção

Mais importante do que ter um pénis grande é ter uma boa dicção.

Clarinete

Só há uma coisa pior do que um clarinete. Dois clarinetes.

Contra os derivados vinícolas

Saiba o Prezado Leitor que, apesar da rúbrica de epigramas «Traçado» que o autor tem vindo estupidamente a editar, o próprio repudia as mélanges vinícolas, v. g. o traçado ou o diesel (aka droguinha). O autor, bem assim, nunca ingeriu traçado. Considera, no entanto, a denominação cómica. A onda idiotizante de epigramas vinícolas, por conseguinte, não vem alterar o gosto do autor pelo vinho em si mesmo.

Saturday, October 18, 2008

Traçado III (Epigrama)

Se um simples traçado
Tivesse boca para falar,
Qualquer alma solitária
Ele poderia consolar.

La

La-la-la la-la-la la la,
La la-la la la-la-la,
La la la-la-la-la lala la,
La la la-la la-la-la.

Monday, October 13, 2008

Badminton

A mint of bad looks sang the news
And pleasant ladies drank their tea:
Such clamour reminded me of Toulouse;
Forgot to pay the legal fee.

The bells echoed through windy fields
Where golden wheat grew up in June;
Long live the girl who has revealed me
A thousand cherry trees in bloom.

Sunday, October 12, 2008

Sopas de cavalo cansado

Meu querido Franz,

Assim que a colheita fique completa, estou a pensar em comprar a casa dos Goldenberg, que vão viver para Israel. Dizem que lá a terra é muito mais fértil do que nas nossas montanhas. Se bem que aqui também não me posso queixar muito, pois, desde que construíram a ponte de madeira na nossa aldeia, é muito mais fácil ir visitar a Martha todos os dias, seja quais forem as condições atmosféricas. Não tenho saído muito de casa, pois receio vir a ser expropriado um dia destes. No entanto, se isso acontecer, não tenho como o impedir. Na semana passada, os Bruckner ficaram sem quatorze ovelhas que lhes foram requisitadas. Como vês, as coisas por aqui não andam assim tão bem. Estamos contentes por a guerra ter acabado, mas não sabemos o que nos espera a seguir. Esperamos que te corra tudo bem, lá na América. Dá notícias.
O teu querido pai,
Stefan

Wednesday, October 01, 2008


Traçado II (Epigrama)

Ergo o meu traçado
Em direcção às estrelas;
Ao longe, oiço o estrépito
De fervorosas tarantelas.

António Pinho Vargas

"Tom Waits"

Pensamento

Eu só queria dar um mergulho e fumar um cigarro, mas acabei por ter este pensamento.

Vai E Vem

Desde que vi o Vai E Vem é raro descer do Príncipe Real à Praça das Flores pedestramente.

Thursday, September 25, 2008

Catarina

Convido o Prezado Leitor a dar os parabéns à querida Tia Catarina, cuja simpatia e generosidade - conjugadas com o seu talento culinário celestial - tantas vezes inspiraram o Autor deste blogue. Parabéns!

Wednesday, September 24, 2008

Traçado (Epigrama)

Ao vento brindo um traçado,
Imaginando a cara de um leão.
O vento responde-me de volta
Em ruído de motor de avião.

Duas quadras

Opto pela terceira saída da autoestrada
Onde os painéis indicam várias direcções...
Azul sorriso chama ardente pela relva
Que se alastra verde pelas nossas aflições.

É um ninho de veludo que chove penas,
Caravela de estranhas feições...
E a luz desse quarto transborda serena
Mil duzentas e quatorze celebrações.

Friday, August 29, 2008

Season four

O verão vai passar. Os números dos autocarros mantêm-se inalterados: até daqueles que quotidianamente se vêm confrontados com sinuosos percursos. A Praça das Flores foi renovada, mas eu continuo a escrever com o mesmo ímpeto. Já disse grandes verdades neste blogue. E já disse coisas mais profundas do que a soma aritmética de um top ten de hipermercado ou do que o Zé Maria no confessionário. Este blogue está a fazer história nos Anais da Blogosfera e nem o Prof. Neca é capaz de explicar porquê.

Monday, August 25, 2008

Oyfn Pripetchik - Esther Ofarim


Oyfn Pripetchik
(written by Mark Warshavsky)

Oyfn pripetchik brent a fayerl,
un in shtub is heys.
Un der rebe lernt kleyne kinderlakh
dem alef-beyz.

Zet zhe kinderlakh,
gedenkt zhe, tayere, vos ir lernt do.
Zogt zhe nokh a mol un take nokh a mol:
"Komets-alef: o!"

Lernt kinderlakh, lernt mit freyd,
lernt dem alef-beyz.
Gliklekh is der Yid, wos kent die toyre
un dos alef-beyz.

Thursday, August 21, 2008

Lehr du vert

Lehr du vert is keit geer esset
Mehl voor sicht blur glaven klesser;
Thier bis vleine gkent meer loom,
Sit gewaickgt platz schrawe blur...

Undt diem untergladen niehr
Fitten splatz werheitlur pliert;
Gund Gewunde last unt havler,
Lutverweitungliebstertandler.

Tuesday, August 19, 2008

Janeiro

Eu quero ser o teu sol de Janeiro, que todas as manhãs te aquece através do vidro congelado do comboio de Cascais.

Tuesday, August 12, 2008

Aetate provectus

Francisco Aguilar apontou, há uns meses atrás, uma questão ética da maior importância: a relação entre as gerações. É uma questão antiquíssima. Kant chega a abordá-la e, bem assim, Rawls, no capítulo da Distribuição da sua Teoria da Justiça, etc. Francisco Aguilar dizia que vivemos num tempo em que os jovens gozam de uma sobrevalorização e de uma super-protecção por parte da sociedade, enquanto que os idosos são colocados em último plano. É a chamada "histeria das criancinhas", nas suas palavras. Afirmava também que o futuro não está nos jovens, mas sim naqueles de idade proveita. A velhice, enquanto símbolo do futuro da natureza humana, deve ser respeitada acima de tudo. Notei certa profundidade nestas palavras que acabam por criar uma ponte entre a Filosofia Oriental - que exalta o ancião, colocando-o entre as pessoas mais esclarecidas e espiritualmente densas na sociedade - e o Sein-zum-Tode heideggeriano.

Monday, August 11, 2008

Prolegómenos

A minha mãe tem um livro intitulado Prolegómenos de organização doméstica. Não está publicado, mas é como se estivesse.

Novo volume

O autor deste blogue tem a honra de comunicar aos seus leitores que já lançou um novo livro. Depois do sucesso de Lázaro e o Lazer e A Leviandade do Peso, segue-se A (In)Felicidade de Saltar Uma Vedação. Como sempre, na Assírio & Alvim.

Saturday, August 09, 2008

Carta aberta explicando o motivo de eu não usar pijama

Veneráveis Confrades,
A nossa sociedade continua a florescer, alicerçada na vetusta Tradição - desde as peripatéticas reflecções às magnas construções; desde a barbárie até ao Cristianismo; desde os Antigos até aos Modernos. Atravessámos tempos em que o homem foi avaliado somente de acordo com as suas capacidades físicas, sendo objecto de trocas no mercado; tempos em que o homem foi queimado na praça pública pela Santa Inquisição; tempos em que o homem lutou pela sua liberdade, para mais tarde vir a ser deportado em massa. A verdade é que apenas com a moral cristã - e muito dificilmente - é que o homem aprendeu a amar o próximo e, acima de tudo, a respeitar o indivíduo. Perceberão todos os catões que não foi fácil construir aquilo que hoje somos. Perceberão todos os césares que não há outro poder tão magnífico como a Graça Divina. E compreenderão, certamente, todas as lucrécias como nesta terra nada é mais sagrado do que as nossas mães.
Mas se os velhos costumes permanecem na sua serenidade, quais colunas fundacionais deste templo a que nomeamos de Humanidade, pergunto-me: o que resta do nosso sono? Pergunto-me se Morfeu, filho de Hypnos, ainda obedece aos pedidos de seu pai ou se, pelo contrário, terá Freud assassinado Hypnos para formar um reino de filisteus sofisticados? A questão é decerto complicada. Saibam, porém, os veneráveis confrades que é mais complicada esta questão do que o enigma que ultimamente difundistes acerca do facto de eu não usar pijama. No sufoco de tantos rumores, vejo-me, pois, obrigado a dar-vos uma explicação.
O pijama (do persa پايجامه) é típico das culturas que privilegiam o sono. Ora, eu não privilegio o sono. Exalto precisamente o contrário do sono: um estado de contínua lucidez, em cuja insónia a consciência jamais perece. Porque, efectivamente, o sono mais não é do que a constante expiação da consciência em favor do descanso físico.
(ilegível)

Thursday, August 07, 2008

Ronha

No âmago de um primeiro beijo matinal,
Enevoa-se a suave e calcedónica bruma
Que vetiveramente a ambos nos perfuma
Num caleidoscópico vitral;
Manhãs como estas, confesso, nunca vivi nenhuma.

O vinho em nossas almas fermentando,
Poéticas imagens de Outubro nos revela;
E o Tempo, que ficou do outro lado da janela,
Triste e aborrecido vai esperando:
Na rua perpendicular, passa uma tímida gazela.

Os serviços postais dançam o swing
Abraçados a um circunstancialismo atmosférico
E, sem sequer disso darem conta,
Trazem notícias de Beijing,
E das donas de casa que andam de teleférico.

É um refrescante nevoeiro em copos de champagne,
Esse teu riso tão aliciante
Que, de tão dócil e florido,
É inevitável e incongruente que não te acompanhe;
E, quando por mim dou, no teu corpo eu estou perdido,

Porque, no âmago de um primeiro beijo matinal,
Enevoa-se a suave e calcedónica bruma
Que, vetiveramente, a ambos nos perfuma
Num caleidoscópico vitral;
Manhãs como estas - confesso - não sei sequer de uma.

Fellini moment

A nossa estória

A nossa estória não é igual às outras. É simultaneamente fruto do mero acaso e de um desejo prolongado e constante. Tem uma componente de leviandade e outra de sublime. Na nossa estória, as palavras que pronunciamos correspondem aos sentimentos. Nós somos verdadeiros e a nossa estória é autenticamente real. A nossa estória tem cafés e cerejas. Tem rotina, mas tudo é uma grande fantasia; tudo se passa a nível de longínquas galáxias. A nossa estória tem uma parte de incerteza e outra parte de felicidade. É como a chuva, quando se torna amiga do sol. A nossa estória é a nossa estória.

«Pós-modernidade» e conceptualismo

Falar acerca da «pós-modernidade» não é de todo tarefa fácil. Não é tarefa fácil, em primeiro lugar, porque se trata de um assunto excessivamente abrangente: quando abordamos a problemática da pós-modernidade estamos a lidar com um objecto de estudo quase impossível de definir. Em segundo lugar, quando penetramos neste tema, das duas uma: ou temos um conhecimento profundo daquilo que é (foi) o período moderno, ou então nunca vamos conseguir compreender sequer o que é a pós-modernidade. Por último, uma vez compreendida a pós-modernidade enquanto objecto de estudo difuso, deparamo-nos com aquela que é verdadeiramente a questão das questões: será que a pós-modernidade existe? Isto é, fará sentido falarmos numa "condição pós-moderna" da sociedade actual, na expressão de Lyotard? Ou será que ainda é cedo para empregarmos o termo, devendo antes apelidar a actual condição socio-cultural, ética, científica e estética de "hipermodernidade", como o faz Lipovetsky? Ou ainda, será que não se trata nem de uma coisa nem de outra? Será que devemos optar por um meio termo, como o faz Zygmunt Bauman, nomeando-a de "modernidade líquida"? A meu ver, é nestas grandes questões que se faz notar a insuficiência do conceptualismo que, aliás, tem vindo a perecer desde que a imperceptível (inexistente?) fronteira entre o fim da modernidade e a "condição actual" se tem vindo a acentuar.

Tuesday, August 05, 2008

Em busca do Lomba perdido

Pedro Lomba mudou. Perdeu na elegância e ganhou no humor. Perdeu na subtilidade e ganhou no prosaico. Digamos que não perdeu a sua profundidade analítica: apenas a redireccionou para os temas desportivos. Deixou de ser o «sentimental de direita» para passar a ser um plebeu. A causa foi, de facto, modificada.

«Cada festa possui uma ordem espontânea, uma lógica grupal pela qual os convidados se organizam. Normalmente, nunca faltam três categorias: os que falam, os que olham e os que bebem. A maioria dos que estão na festa fazem estas três coisas. Só poucos, mais inteligentes, concentram-se apenas numa.»
O Pedro Lomba do antigamente

Dez apontamentos sobre culinária

1. A culinária não é uma ciência, embora se sirva do método científico.
2. A culinária também trabalha com operadores gnoseológicos e o chef nem sequer dá conta disso.
3. A crise do conceptualismo tradicional kantiano, bem como as novas correntes do Círculo de Viena, também tiveram profundas consequências na culinária, v. g., a chamada nouvelle cuisine.
4. O problema dos conceitos, em culinária, não surge a propósito dos ingredientes, mas sim dos pratos que resultam da sua combinação.
5. Os temperos estão para a culinária como o Relativismo está para a Física tradicional.
6. É redutor abordarmos a culinária em termos unicamente científicos.
7. Acompanhar a comida com música clássica traduz-se numa dupla ofensa: ao compositor, por um lado, e ao chef, por outro.
8. Em culinária, ao contrário das outras ciências de cariz objectivista, vigora o princípio de gustibus non disputandum est.
9. A haute cuisine não é sinónimo de snobismo, apenas de bom gosto.
10. O ideal cultural do gourmet, pode afigurar-se útil no traçamento de uma fronteira ontológica entre o estóico e o não-estóico.

Sunday, August 03, 2008

Isto sou eu

Saturday, August 02, 2008

Objecto

Heidegger explica que o substantivo "objecto" é uma aglutinação do prefixo proposicional latino ob com o verbo jacto, -as, -are, -avi, jactatum. O objecto é aquilo que é atirado contra nós pela factualidade, aquilo que nos é posto à frente, o que nos é dado para analisar.

Sá Nogueira

No outro dia encontrei o Fisher Sá Nogueira na rua e parámos para trocar uns monólogos.

- Assinei a sentença com a minha caneta de ouro e depois fui almoçar ao Coisas de Comer.
- Gostava de comprar cinco hectares de prado verde.
- A secretaria estava fechada.
- Quando aterrei em Timbuktu estava esfomeado, pelo que resolvi telefonar ao Governo.

- Estes semáforos estão todos descoordenados, deviam mandar arranjar isto.
- Um polícia sinaleiro vale mais que dois pássaros a voar.
- Vou andando. Encontramo-nos no fim desta rua.
- Triste polaridade, essa de eternamente demandar o princípio e o fim das coisas.

Thursday, July 31, 2008

Lua de mel na Rua do Salitre

Suspeito que neste mundo haja pelo menos um casal que tenha passado a lua de mel na Rua do Salitre.

Wednesday, July 30, 2008

Errata

No post Fogueirinhas, onde se lê "fazem", deve ler-se "elaboram".

Wednesday, July 23, 2008

Usucapio aureliani

Nunus Aurelianus magister cathedrae Iura Realia est. Hoc duas orales iam fecit et in sula me plumbavit. Aurelianus sciat omnia de Iura Realia, sed animam suam sensibila non est. In comportamento suo dignitatem abest et suus sensus humoris limitatus est, verbi gratia, Corpus Iuris Afghanistani. Scio discipuli pigri sunt, sed non obstans humanitatem corpi docentium desiderata est.

Parceiro pensador

Todos nós devíamos ter um parceiro pensador. Quando acordássemos de manhã, ele vinha ter connosco (a única palavra do nosso léxico na qual dobramos a consoante para além de comummente) para pensarmos em conjunto. Não só pensaríamos nas surpresas e nas perniciosidades quotidianas como, bem assim, reflectiríamos num ser que foi - aclararíamos aveludados enigmas. No Natal passado, pedi uma irmã; este Natal, vou pedir um parceiro pensador.

Tuesday, July 22, 2008

Valentina Lisitsa

Chopin

Étude Op. 25, No. 12 "Ocean"•Étude Op. 25, No. 9 "Butterfly"

Monday, July 21, 2008

Gelato al limon

Os lábios da mediterraneidade californiana sabem a gelado de limão.

Explosividade dialéctica

Tal como as pequenas flores brancas necessitam da relva verde para fazerem realçar a sua beleza; tal como as flores urbanas convivem necessariamente com asfaltos cinzentos: da mesma forma, nós próprios convivemos com o binómio presença/ausência. Basta a simples presença para que o vácuo de todo o Universo caminhe para a embriaguez; basta um único beijo para que o equilíbrio do cósmos fique notoriamente abalado. E é isso que faz com que a ausência seja, no fundo, o período de convalescência durante o qual a infinitude recupera do golpe que sofreu, preparando-se para sofrer o próximo. E o próximo é sempre mais forte do que o anterior.

Tuesday, July 15, 2008

Fragmento

Ninguém evitou a lotação esgotada
Da sessão cinematográfica matinal
Aguardando multidões à porta
Em sistema sexagesimal
Ninguém fez a cidade arrancar
Estagnando fontes e semáforos
Dactilografando secretárias o cintilar
De oitocentos e quatorze obstáculos
A criança dança descansa
Balança mudança vingança
O adulto oculto sepulto
Indulto sem perseverança

Fronteiras ontológicas

Ultimamente tenho andado à procura da fronteira ontológica entre a semelhança e a diferença. Segue-se a busca da fronteira ontológica entre a perda de tempo e a estupidez.

Fogueirinhas

Onde estarão, por esta hora, aqueles jovens que fazem umas fogueirinhas na palma das mãos?

Monday, July 14, 2008

Agradecimento

Já há algum tempo que tinha sido convidado pela Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves para proferir uma comunicação sobre a obra de Silva Porto, ao longo deste mês de Julho. Infelizmente, confesso que nunca fui grande apreciador do naturalismo oitocentista português. Inicialmente, quando recebi o convite, fiz os possíveis para o não recusar, ainda contra a minha vontade que era ignorá-lo sem mais nem menos. Foi, todavia, o que acabou por acontecer. Não vá a magnífica Direcção da Casa Museu levar-me a mal, mas devo dizer que notei um certo tom de inoportunidade no convite. É que pedir a um especialista em pós-vitoriano que se pronuncie sobre naturalismo oitocentista acaba por ser o mesmo que pedir a um Warhol que vá fazer de polícia sinaleiro por umas horas.

Friday, July 04, 2008

Wednesday, July 02, 2008

O efeito de presunção do chumbo

O chumbo (Pb) constitui um dos metais mais utilizados na Idade do Ferro e, consequentemente, na civilização castreja. Neste momento estou aqui no corredor da faculdade, inclusivamente sentado num banco com estrura metálica plúmbea. O efeito de presunção do chumbo, s. c., o último degrau da escada no fim da qual se atinge o apogeu da decadência intelectual, afigura-se ainda informe a meus olhos.
- Como tem passado?
- Não se meta em vida alheia se não quer lá ficar.
E assim sucessivamente.

Saturday, June 28, 2008

Coincidência

As gazelas sorviam a luz que jorrava da Lua enquanto as zebras descansavam no meio das papoilas.

Fiddler On The Roof

The Funnels (Die Trichter)

Two funnels travel through the night;

a sylvan moon's canescent light
employs their bodies' narrow
flue in flowing pale
and cheerful
thro
ug
h

A funnel ambles through the night.
Within its body, moonbeams white
converge as they
descend upon
its forest
pathway
and
so
on
(Christian Morgenstern)

Michael I. von Rumänien

Foi bom saber que, após sessenta décadas de exílio, a Família Real romena voltou a fixar a sua morada na sua terra natal. Sua Majestade, Michael von Hohenzollern-Sigmaringen, juntamente com a sua esposa, Anna de Bourbon-Parma, Rainha da Roménia, trocaram a Suiça pelo velho Castelo Peles, em Sinaia.

Friday, June 27, 2008

Recordar Guilhermina Suggia


Porto, 27 de Junho de 1885 - Porto, 30 de Julho de 1950

Friday, June 20, 2008

Despertar

A minha alegria seria um despertar a dois,
Radiante euforia de correr as praias virgens
Sorvendo loucamente meia melancia,
Sentindo - pele na pele - os nossos corações:
De mãos dadas eclodindo em agreste risofonia.

Um despertar em dois sorrisos,
Celestial osmose do sonho para o teu corpo,
Aquarélica transfiguração em tons de calcedónia;
Os lençóis brancos servindo-nos de porto
E a suave brisa insinuando-te, Antónia.

Thursday, June 19, 2008

Wednesday, June 11, 2008

vintage_corset_1

Tuesday, June 10, 2008

Ostracismo obsequioso

Os exímios canteiros, porém, conduziam-no opulentemente a um ostracismo obsequioso.

Monday, June 09, 2008

A Praça das Flores e a "esquerda-caviar": uma ponte entre Sá Fernandes e o cinema avantgardista português

Da dor em Isabel Moreira

O conceito de dor, para esta Autora, pode ser revisitado na trilogia Mahler-Mann-Visconti. Ele acaba, no fundo, por coincidir com o conceito de beleza Adagietto-Aschenbach-Tadziano.

Sunday, June 08, 2008

Blue chalcedony

Everywere he looked, he saw the joy of her blue chalcedony eyes shining.

Friday, June 06, 2008

Logik der Forschung

A ideia de progresso na descoberta científica reside precisamente no abandono da dogmática em favor da crítica. A dialéctica deixa, pois, de fazer sentido quando contaminada pela bactéria do conceptualismo. Afinal de contas, o grande papel do cientista reside não na criação de novos conceitos, mas sim na destruição dos conceitos já existentes. Um rebuçado a quem tiver a ousadia de provocar o próximo Big Bang no actual panorama da epistemologia.

Tuesday, June 03, 2008

Literatura de verão

 imageloader   how to

don juan mol don juan

                         imagem

Recordar José Campos de Figueiredo



FINGIMENTO

Iludo o sentido
Da vida em que vivo.
O mundo que sinto
É mundo que minto.

É mundo pensado
Aquém, do outro lado
Da margem do rio
Com águas em fio.

A imagem dos astros,
Das velas, dos mastros,
Das nuvens, das margens
É sombra de imagens.

Perdidas no fundo
Do engano do mundo.
Não quero a certeza
Da minha tristeza.

Deixai-me à vontade
Naquela verdade
Pensada e fingida
Que é logro de vida.

Se minto o que sinto,
De tudo o que minto
Iludo o sentido
Da vida que vivo.


José Campos de Figueiredo (Cernache, 6 de Maio de 1899Coimbra, 28 de Novembro de 1965). Poeta, ensaísta e dramaturgo.

Monday, June 02, 2008

A essência do fundamento

Nestes momentos de amargura, o mundo aparece a meus olhos dividido entre aqueles que já dispensaram a tudo e nós - os que ainda não dispensámos a tudo. Se me perguntardes onde preferia estar, não hesitaria em dizer-vos que é precisamente onde estou agora, rodeado dos demais camaradas não-dispensantes. É que a verdadeira felicidade não reside na supérflua aparência de se ter encontrado a Verdade, mas sim na sua eterna procura. E é isso que faz de nós os verdadeiros humanistas: aqueles que nunca perdem a voluptuosa paixão pelo conhecimento, que nunca desanimam com as vicissitudes, que não se deixam vencer na grande encruzilhada de provarem que a Terra, afinal, é redonda.

Wednesday, May 28, 2008

Benquerença

Ouvi as flores, congelei e derreti a exímia estrofe
Que me passou a mão pelo cabelo;
Cansado e ébrio de arte sacra,
Adormeci sem ti e tive um pesadelo
Sobre o mundo em que vivi.

Apanhei a semente de álamo voadora
E pedi um desejo irrealizável,
Perseverando nos olhos de uma mulher judia
Estrelas de David e um segredo inconfessável.
Mazel tov, Miriam! Irreverente poesia.

Irrequieta caligrafia que me esmagas lentamente,
Coral presságio de infinitude,
Esgrimar-te-ei, ó Tempo, até à plenitude,
Enquanto as palavras voarem contra o vento,
Enquanto o vento me não roubar a juventude.

Tuesday, May 27, 2008

Tempo, vontade e percepção

Talvez o grande problema dos diletantes não resida num elemento volitivo, mas sim no problema da percepção do tempo. O diletante não compreende o tempo. Neste grito heideggeriano, diria até que o diletante é inocente em o ser.

Monday, May 26, 2008

Pedra Formosa

A descoberta da Pedra Formosa permitiu a Martins Sarmento, em 1875, identificar o célebre balneário da Citânia de Briteiros. O minúsculo orifício servia de entrada para a sala dos banhos: assim evitavam-se as perdas de vapor, mantendo a temperatura constante. Trata-se de uma relíquia típica da civilização castreja, em plena idade do ferro. Grandes perversidades aconteciam por detrás da Pedra Formosa. Muitos sabonetes eram ali apanhados. Foi por isso que inventaram o sabonete líquido: um dos maiores avanços do mundo ocidental.

(Fotografia de Henrique Matos)

Thursday, May 22, 2008

Fellini moment

Sunday, May 11, 2008

Mitras

O meu génio sanguinário, movido por um incessável ódio, almeja a vossa carnificina instantânea - bem como a dos vossos entes queridos.

Ditador

Quando tento falar aos estúpidos, os estúpidos ignoram-me. Sorrio aos estúpidos e eles vencem-me. E, quando observo à minha volta os estúpidos que se movimentam de um lado para o outro, num misericordioso ímpeto confesso ao meu coração: gostava de ser um ditador.

Saturday, May 10, 2008

Poder de império

Não há nada a fazer. Elas têm poder de império.

Thursday, May 08, 2008

Consequência

Saiba o Prezado Leitor que a crise de batata na Irlanda nunca foi causa da imigração para a América do Norte, mas sim sua consequência.

Tuesday, May 06, 2008

À selénia Ana Maria

Venusta graça paira em seu doirado cabelo,
Robusta e formosa vai passando;
Busto cheio, suave e gracioso tornozelo,
Viris varões com seu olhar asfixiando.

Ovação

Relembro aqui o homem que, pela primeira vez, resolveu secar uma folha de tabaco, enrolá-la em papel e fumá-la. A ele deve a história um preço impagável. E, no entanto, ele foi esquecido para sempre.

Lomba

Querias...

Thursday, May 01, 2008

1º de Maio

Hoje é o único dia do ano em que eu e todos os diletantes temos mais vontade de trabalhar.

Monet

Ele via-a com os mesmos olhos que Monet via a Catedral de Rouen.

Tempo

Apetece-me queimar todos os calendários, destruir todos os relógios - até os Jaegers. Sobravam apenas os dias e as noites. As estações do ano. E as cerejas.

Astronauta

Fui eu que esculpi o asfalto, de forma a poder dar espaço às raízes das árvores.

Tuesday, April 29, 2008

Geraldes

Ele questionava-se sobre a essência do erro, no entanto, desconhecia a essência da verdade.

Saturday, April 26, 2008

The Underarm Incident

Tuesday, April 22, 2008

Valores hedónicos

Sempre que ponho de lado as pré-ocupações pseudo-intelectuais, faço um assalto aos valores hedónicos. Neste aspecto, a minha prototipicidade assemelha-se ao Nick Carraway do Great Gatsby. Continuo, pois, a acreditar que Fitzgerald, ao escrever esta novela, teve como principal objectivo retratar o típico dandy do pós-guerra. O certo é que, quase cem anos depois, esse retrato continua válido até ao mais particular dos pormenores.

Sunday, April 20, 2008

Thursday, April 17, 2008

Quiçá

Gostava de te apanhar desprevenida,
Algures, no meio de um jardim;
Beijar-te o pescoço e - quiçá -,
Sentir a manhã recém-nascida
Na tua pele de pinguim.

Quiçá, correr atrás do teu perfume,
Embriagar-me de ar fresco
Cambaleando até ao canapé
E, enquanto um simpático cigarro fume,
Ir saboreando um café.

Proponho-te jogar às escondidas
Num labirinto de arbustos
Ou, quiçá, rebolar na relva
Sussurando frases nunca antes ouvidas,
À porta de uma sentimental selva.

Mesmo durante um suave sonho,
No mundo da minha almofada;
Mesmo quando ao passar de cada hora
Assisto com um ar risonho,
Eu vou esboçando esta imagem sedutora,

Na qual gostava de te apanhar desprevenida,
Algures, no meio de um jardim;
Beijar-te o pescoço e - quiçá -,
Sentir a manhã recém-nascida
Na tua pele de pinguim.

Tuesday, April 15, 2008

Brindes

Sempre tive um problema com os brindes. Em particular, com aqueles brindes que obrigam o destinatário da campanha promocional a dirigir-se para junto de um stand e proceder à sua reivindicação. Devo dizer, o sentimento é bastante complexo. O homem médio, porém, costuma encarar os brindes com a maior das simplicidades. «Dirijo-me às meninas, dou um ar da minha graça e recebo o brinde», diz o homem médio ao seu coração. No entanto, tal não é verdade. Aqueles que encaram os brindes de forma tão simplória estão eternamente condenados à errância pela escura floresta do marketing. Neste preciso momento, o prezado leitor estará provavelmente a esboçar um inocente, mas compreensível, «porquê?». Se realmente deseja saber, não perca, então, o próximo post.

Sunday, April 13, 2008

Fellini moment

Wednesday, April 09, 2008

Inquietude

São por vezes as nuvens almofadadas,
As aves que voltam do Sul
Enquanto brancas bandeiras desfraldam,
Que me embarcam num conto de fadas,
Mergulhando-me em nuances de esmeralda.

Dispenso glórias e coroações.
Afogado em espuma de barbear,
Canto uma interminável ode
Reflectindo sobre várias acepções:
Desde a história do bigode.

Penso na solidão de um saca-rolhas
Que sonha algures, numa gaveta;
Percepciono as memórias de um sofá,
No qual fiz importantes escolhas
Saboreando meio maracujá.

Mas, quando te ficciono, cedo me apercebo
De que só tu me agradas;
Só quando esboças o teu sorriso burlesco
É que sacio a sede da paixão que bebo:
O teu mundo é, decerto, pitoresco.

Muitas das vezes, são as nuvens almofadadas,
As aves que voltam do Sul
Enquanto brancas bandeiras desfraldam,
Que me embarcam num conto de fadas,
Mergulhando-me em nuances de esmeralda.
A fada, a almofada e a esmeralda.

Tangência

Uma pessoa começa a figurar mutuamente na vida de outra pessoa e vice-versa.

Convergência

Uma pessoa começa a estar presente em tudo o que rodeia outra pessoa.

Friday, April 04, 2008

Temos que falar

Pois temos: desde o primeiro segundo em que nos vimos.

Cosmopolitismo

Andar pelas ruas de Timbuktu e sentir que a minha pele cheira a sabonete de hotel.

Nudez

Não raras vezes, ele chegava a perder-se mais na na nudez dela do que nos próprios pensamentos.

Tuesday, April 01, 2008

Soda

Eu queria encontrar-te por acaso,
Num improvável lugar;
Sentir o que em ti me acomoda
Enquanto a felicidade extravaso.
Queria tomar contigo uma soda...

Penso em ti copiosamente,
Qual argonauta sem destino,
Anseio suavemente um plus ultra,
Querendo beijar-te efectivamente.
Para rimar, exclamaria quam pulchra.

Este poema, na verdade,
É um mero desenho de criança:
Daquelas confissões sinceras
Repletas de felicidade.
É fruto de um cocktail de quimeras

E, se perguntas porque o fiz,
Foi só para marcar o momento
Em que a brisa me toca no cabelo,
Nas frescas noites primaveris
Quando, contigo, me apetece uma soda.

Monday, March 31, 2008

Dandy

Tenho esta tremenda obsessão pelo Príncipe Real. Há dias em que sou capaz de subir vezes sem conta à praça, seja para passar pelo meio dos velhos que jogam às cartas, seja para ver a feira de antiguidades, seja para me sentar, simplesmente, debaixo da mítica árvore, inalando o aroma da hortelã. Depois vivo destas ideias inconcretizáveis, enganando-me a mim próprio: um dia, a árvore do Príncipe Real acordará do seu sono lendário e envolverá o planeta inteiro, salvando-nos a todos de um sol tórrido. Questionar-se-á o honrado leitor acerca do meu juízo. Amavelmente eu lhe respondo, em tom baudelairiano, dizendo que elevo a estética a uma religião viva - coisa que faz de mim um dandy.

Sunday, March 30, 2008

Da perniciosidade do conceptualismo nas ciências do espírito

Outra revisitação aos Universalia. Desta vez, com um exemplo que me ocorreu enquanto estava a tomar banho.
«Liberta-te do corpo» é um leitmotiv comum a todas as construções nominalistas, tanto socrático-platónicas, como de índole cristã. Apliquemos ao problema que se segue uma matriz tipicamente conceptualista: o pensamento dedutivo. Façamos, todos em conjunto, um juízo assertórico bacano. O álcool faz mal à saúde, pelo que quem beber está, literalmente, a agir de acordo com o leitmotiv supra referido: é este - e desde sempre foi - o problema do conceptualismo nas chamadas «ciências do espírito».

Thursday, March 27, 2008

Club

I would never want to belong to any club that would have someone like me for a member.

(Woody Allen in «Annie Hall», 1977)

Wednesday, March 26, 2008

Croquis

Há várias maneiras de viver a vida. Uns vivem-na em aguarela, outros em pastel, outros em óleo e ainda há aqueles que a vivem em carvão: preto no branco. Eu prefiro vivê-la em croquis espalhados por uma tela monumental.

Early Morning Pipe

Após alguns meses de constante procura, consegui encontrá-lo num site californiano. Encomendei uma lata que chegou hoje mesmo, numa caixa em que se podia ler contains old book, indicando, de forma inteligente, a módica quantia de $5 para fugir às taxas.
Quando abri a lata, o tabaco cheirava a bosta de cavalo. Todavia, ousei encher meio fornilho de um cachimbo meerschaum, de forma a sentir todos os seus aromas. Assim que o acendi, o sabor da latakia foi o primeiro a evidenciar-se, com o seu inconfundível travo oriental, pairando numa equilibrada mistura de virgínias claros e vermelhos. Cedo me apercebi de que estava perante uma mistura inglesa da mais alta qualidade. Para concluir, não posso deixar de transcrever a descrição original deste tabaco: great as the «first pipe» arousing the palate for the further pleasures of the day.

Tuesday, March 25, 2008

Prezado Leitor

Saiba o Prezado Leitor que é ele mesmo que constitui a razão dos meus devaneios.

Namorada de verão

É a rapariga nova, nunca antes vista, que, em Agosto, abala por completo a serenidade de qualquer vila balnear, quebrando meia dúzia de corações. A vida de qualquer rapaz muda diametralmente desde o dia em que conquista a sua primeira namorada de verão.


Nhecos!


Reminiscência

Os pedaços de tempo que outrora disperdiçámos jazem espalhados pela cidade. Quando passo por eles, revejo a magnética entrada de um santuário em que a indiferença persiste. Talvez a ridicularidade deste tom não é a mais indicada para falar disto - isto, no entanto, não é nada. Quiçá, reminiscências duma tarde em que posaste nua. Agora estou para ti tal como o engenheiro de som está para o nocturno de Chopin.

Tuesday, March 18, 2008

Summer of '42